sexta-feira, 22 de maio de 2009

Descendo o rio numa canoa



Sempre gostei de desporto contudo, nunca fui adepta da prática de desportos radicais. Dão-me aquela sensação de perda de controlo, que não gosto de sentir.
Há algum tempo, recebi um convite para descer o rio Mondego de canoa. Não aceitei logo, muito embora tivesse curiosidade de experimentar. Fiz muitas perguntas: E se a canoa se vira? E se o rio tem muita corrente? E se eu não consigo controlar? E os rápidos? Convenceram-me que não era perigoso e aceitei, porém, cada vez que pensava nisso sentia um friozinho na barriga. Pensei: se os outros conseguem porque também não hei-de conseguir?
Lá fui, sempre com aquele friozinho na barriga. Depois de iniciada a viagem tivemos de remar, contornar obstáculos. Com o meu companheiro de viagem (a canoa era de duas pessoas) discutia estratégias para melhor avançar. A maior parte das vezes não estávamos de acordo e já só quase no fim da viagem consegui fazer entender ao meu companheiro (o meu filho), que se tivéssemos remado em sintonia teria sido menos cansativa a descida.
É assim, também na vida real nem sempre estamos em sintonia e por vezes já descobrimos demasiado tarde, que se tivéssemos remado no mesmo sentido, teria sido bem mais proveitoso e menos cansativo.
A descida do rio foi uma experiência inesquecível para mim. Para além da beleza natural que se aprecia, cheguei ao fim da viagem com a sensação de ter vencido uma batalha. Por vezes é preciso desafiarmo-nos e superarmo-nos a nós próprios, vencer o medo.
Vencer o medo, ultrapassar barreiras, superarmo-nos a nós próprios torna-nos mais conhecedores de nós mesmo, torna-nos mais fortes.
Estou a pensar seriamente em voltar a repetir esta experiência.

sábado, 16 de maio de 2009

Laura Esquível "Como água para Chocolate"




Este foi um dos últimos livros que li; recomendo... Com algumas cenas algo surrealistas, um pouco ao jeito de Gabriel Garcia Marquez, mas mais soft. Registo aqui parte de um dos capítulos que mais me tocou, com o título " Massa para fazer fósforos".

Massa para fazer fósforos

… Não podia haver em toda a casa um sítio melhor do que o seu pequeno laboratório. Jonh tinha passado nele a maior parte da sua infância e adolescência. … Tita gostava muitíssimo de o ver trabalhar. Com ele havia sempre coisas para aprender e descobrir., como agora, que enquanto preparava os fósforos ia-lhe dando uma lição sobre fósforos e suas propriedades. ….
O médico não descuidava a preparação dos fósforos pelo facto de falar. Dissociava sem qualquer problema a actividade mental da física. Podia até filosofar sobre os aspectos mais profundos da vida sem que as suas mãos cometessem erros ou pausas. Portanto, continuou a manufacturar os fósforos enquanto conversava com Tita. …
… Enquanto as tiras secavam, o médico mostrou uma experiência a Tita.
- Embora o fósforo não faça combustão com o oxigénio à temperatura ambiente, é susceptível de arder com grande rapidez a uma temperatura elevada, olhe…
O médico introduziu um pequeno pedaço de fósforo num tubo fechado num dos lados e cheio de mercúrio. Fez fundir o fósforo aproximando o tubo da chama de uma vela. Depois, através de uma pequena campânula de ensaios cheia de oxigénio fez passar muito lentamente o gás para a campânula, onde se encontrava o fósforo fundido, deu-se uma combustão viva e instantânea, que os deslumbrou como se fosse um relâmpago.
- Como vê, todos temos no nosso interior os elementos necessários para produzir fósforos. Mais ainda, deixe-me dizer-lhe uma coisa que não confiei ainda a ninguém. A minha avó tinha uma teoria muito interessante, dizia que embora todos nasçamos com uma caixa de fósforos no nosso interior, não os podemos acender sozinhos, precisamos, como na experiência, de oxigénio e da ajuda de uma vela. Só que neste caso o oxigénio tem de vir, por exemplo, do hálito da pessoa amada; a vela pode ser qualquer alimento, música, carícia, palavra ou som que faça disparar o detonador e assim acender um dos fósforos. Por momentos sentir-nos-emos deslumbrados por uma intensa emoção. Dar-se-á no nosso interior um agradável calor que irá desaparecendo pouco a pouco conforme passa o tempo, até vir uma nova explosão que o reavive. Cada pessoa tem de descobrir quais são os seus detonadores para poder viver, pois a combustão que se dá quando um deles se acende é que alimenta a alma de energia. Por outras palavras esta combustão é o seu alimento. Se uma pessoa não descobre a tempo quais são os seus próprios detonadores, a caixa de fósforos fica húmida e já nunca poderemos acender um único fósforo.
Se isso chegar a acontecer a alma foge do nosso corpo, caminha errante pelas trevas mais profundas procurando em vão encontrar alimento sozinha, não sabendo que o corpo que deixou inerme, cheio de frio, é o único que poderia dar-lho.
Como eram certas aquelas palavras! Se havia alguém que soubesse isso era ela. Infelizmente, tinha de reconhecer que os seus fósforos estavam cheios de mofo e humidade. Ninguém podia voltar a acender um só que fosse.
O mais lamentável era que ela sabia bem quais eram os seus detonadores, mas cada vez que tinha conseguido acender um fósforo haviam-no apagado inexoravelmente.
Jonh, como que lendo o seu pensamento, comentou:
- Por isso é preciso mantermo-nos afastados de pessoas que tenham o hálito gélido. Bastaria a sua presença para poder apagar o fogo mais intenso, …. Há muitas maneiras de pôr uma caixa de fósforos húmida a secar, mas pode ter a certeza de que tem solução. ….
- É claro que também é preciso ter cuidado de ir acendendo os fósforos um a um. Porque se por uma emoção muito forte se acendem todos de uma vez produz-se um brilho tão forte que ilumina para além do que podemos ver …
- Bom, não quero aborrecê-la com a minha conversa. …. gostaria de lhe ensinar uma brincadeira que eu e a minha avó fazíamos com frequência. … Ela escrevia utilizando uma substância invisível, e sem que eu visse, uma frase na parede. Quando à noite eu via a parede, adivinhava o que ela tinha escrito. Quer que experimentemos?...
… O médico com um pano pegou num bocado de fósforo e deu-o a Tita.
- Não quero quebrar o silêncio que impôs a si própria, e assim como que num segredo entre os dois, vou pedir-lhe que quando eu sair me escreva nesta parede as razões pelas quais não fala, está bem? Amanhã adivinhá-las-ei à sua frente.
O médico, é claro, não disse a Tita que uma das propriedades do fósforo era a de que fazia brilhar à noite o que ela tivesse escrito na parede. Obviamente, ele não precisava deste subterfúgio para saber o que ela pensava, mas confiava que este seria um bom começo para que Tita entabulasse novamente uma comunicação consciente com o mundo, ainda que fosse por escrito. Jonh percebia que ela já estava pronta para isso. Assim que o médico saiu, Tita pegou no fósforo e aproximou-se da parede.
De noite, quando Jonh entrou no laboratório sorriu satisfeito ao ver escrito na parede com letras firmes e fosforescentes: «Porque não quero». Tita com três palavras tinha dado o primeiro passo para a liberdade. …

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Sobre Salazar

O mundo deve estar louco. De repente parece que Salazar se tornou um grande homem, um ídolo nacional.
A ser verdade a história da sua vida, que passou há tempos, em filme, na televisão; só concluo que era um homem cruel e frio. Um homem que não tinha quaisquer escrúpulos, que descartava com a maior facilidade, as várias mulheres, por quem se dizia apaixonado.
Faz-me recordar que, há uns anos atrás, num dito concurso, do qual já não lembro o nome mas, que tinha por objectivo escolher a personagem mais marcante de Portugal, ele foi o escolhido. Senti vergonha do meu país. Parece que as pessoas têm memória curta. Quando morreu eu era muito criança, não tenho qualquer recordação. Porém, sempre ouvi dizer, às pessoas que viveram na sua época, que tinha sido um mau governante. Pode ter organizado as finanças mas, castrou a liberdade e nunca fez algo de verdadeiramente útil pelo nosso país, mantendo-o num atraso total, do qual ainda hoje nos ressentimos.
Nesse dito concurso, melhor seria terem escolhido D. Afonso Henriques, esse sim lutou, de forma aguerrida e apaixonada, pelo nosso país.