… Não podia haver em toda a casa um sítio melhor do que o seu pequeno laboratório. Jonh tinha passado nele a maior parte da sua infância e adolescência. … Tita gostava muitíssimo de o ver trabalhar. Com ele havia sempre coisas para aprender e descobrir., como agora, que enquanto preparava os fósforos ia-lhe dando uma lição sobre fósforos e suas propriedades. ….
O médico não descuidava a preparação dos fósforos pelo facto de falar. Dissociava sem qualquer problema a actividade mental da física. Podia até filosofar sobre os aspectos mais profundos da vida sem que as suas mãos cometessem erros ou pausas. Portanto, continuou a manufacturar os fósforos enquanto conversava com Tita. …
… Enquanto as tiras secavam, o médico mostrou uma experiência a Tita.
- Embora o fósforo não faça combustão com o oxigénio à temperatura ambiente, é susceptível de arder com grande rapidez a uma temperatura elevada, olhe…
O médico introduziu um pequeno pedaço de fósforo num tubo fechado num dos lados e cheio de mercúrio. Fez fundir o fósforo aproximando o tubo da chama de uma vela. Depois, através de uma pequena campânula de ensaios cheia de oxigénio fez passar muito lentamente o gás para a campânula, onde se encontrava o fósforo fundido, deu-se uma combustão viva e instantânea, que os deslumbrou como se fosse um relâmpago.
- Como vê, todos temos no nosso interior os elementos necessários para produzir fósforos. Mais ainda, deixe-me dizer-lhe uma coisa que não confiei ainda a ninguém. A minha avó tinha uma teoria muito interessante, dizia que embora todos nasçamos com uma caixa de fósforos no nosso interior, não os podemos acender sozinhos, precisamos, como na experiência, de oxigénio e da ajuda de uma vela. Só que neste caso o oxigénio tem de vir, por exemplo, do hálito da pessoa amada; a vela pode ser qualquer alimento, música, carícia, palavra ou som que faça disparar o detonador e assim acender um dos fósforos. Por momentos sentir-nos-emos deslumbrados por uma intensa emoção. Dar-se-á no nosso interior um agradável calor que irá desaparecendo pouco a pouco conforme passa o tempo, até vir uma nova explosão que o reavive. Cada pessoa tem de descobrir quais são os seus detonadores para poder viver, pois a combustão que se dá quando um deles se acende é que alimenta a alma de energia. Por outras palavras esta combustão é o seu alimento. Se uma pessoa não descobre a tempo quais são os seus próprios detonadores, a caixa de fósforos fica húmida e já nunca poderemos acender um único fósforo.
Se isso chegar a acontecer a alma foge do nosso corpo, caminha errante pelas trevas mais profundas procurando em vão encontrar alimento sozinha, não sabendo que o corpo que deixou inerme, cheio de frio, é o único que poderia dar-lho.
Como eram certas aquelas palavras! Se havia alguém que soubesse isso era ela. Infelizmente, tinha de reconhecer que os seus fósforos estavam cheios de mofo e humidade. Ninguém podia voltar a acender um só que fosse.
O mais lamentável era que ela sabia bem quais eram os seus detonadores, mas cada vez que tinha conseguido acender um fósforo haviam-no apagado inexoravelmente.
Jonh, como que lendo o seu pensamento, comentou:
- Por isso é preciso mantermo-nos afastados de pessoas que tenham o hálito gélido. Bastaria a sua presença para poder apagar o fogo mais intenso, …. Há muitas maneiras de pôr uma caixa de fósforos húmida a secar, mas pode ter a certeza de que tem solução. ….
- É claro que também é preciso ter cuidado de ir acendendo os fósforos um a um. Porque se por uma emoção muito forte se acendem todos de uma vez produz-se um brilho tão forte que ilumina para além do que podemos ver …
- Bom, não quero aborrecê-la com a minha conversa. …. gostaria de lhe ensinar uma brincadeira que eu e a minha avó fazíamos com frequência. … Ela escrevia utilizando uma substância invisível, e sem que eu visse, uma frase na parede. Quando à noite eu via a parede, adivinhava o que ela tinha escrito. Quer que experimentemos?...
… O médico com um pano pegou num bocado de fósforo e deu-o a Tita.
- Não quero quebrar o silêncio que impôs a si própria, e assim como que num segredo entre os dois, vou pedir-lhe que quando eu sair me escreva nesta parede as razões pelas quais não fala, está bem? Amanhã adivinhá-las-ei à sua frente.
O médico, é claro, não disse a Tita que uma das propriedades do fósforo era a de que fazia brilhar à noite o que ela tivesse escrito na parede. Obviamente, ele não precisava deste subterfúgio para saber o que ela pensava, mas confiava que este seria um bom começo para que Tita entabulasse novamente uma comunicação consciente com o mundo, ainda que fosse por escrito. Jonh percebia que ela já estava pronta para isso. Assim que o médico saiu, Tita pegou no fósforo e aproximou-se da parede.
De noite, quando Jonh entrou no laboratório sorriu satisfeito ao ver escrito na parede com letras firmes e fosforescentes: «Porque não quero». Tita com três palavras tinha dado o primeiro passo para a liberdade. …
sábado, 16 de maio de 2009
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