domingo, 19 de abril de 2009

A infância de Maria

Maria cedo abandonou a sua terra Natal, devido à profissão de seu pai, que viu a sua primeira colocação bastante longe. Com o decorrer do tempo, o objectivo dos seus pais era aproximarem-se cada vez mais da terra onde tinham nascido, regressando assim às suas origens.
Com cerca de cinco anos, foi viver para um monte alentejano composto por meia dúzia de casas. Este monte ficava situado perto de Barrancos, a terra da tourada, e perto da fronteira com Espanha.
Recorda-se de o pai lhe ter feito uns chinelos de cortiça, produto abundante naquela região. Corria pelas planícies, apanhava bolotas debaixo dos sobreiros, corria atrás das vacas que pastavam nos campos e fugia delas quando aproximando-se demasiado, estas se apercebiam da sua presença e lhe viravam os chifres ameaçadores.
A sua brincadeira preferida era levantar pedrinhas para descobrir ninhos de formigas, ficava horas a seguir os seus carreiros, vendo-as a carregar umas bolinhas brancas, que lhe pareciam ovos. Então imaginava que as formigas eram as suas galinhas e aquelas bolinhas brancas eram os ovos que elas punham. Um dia levantou uma pedra maior que o habitual, baixou-se e espreitou, viu dois olhos muito brilhantes a olharem para ela. Rapidamente baixou a pedra e fugiu assustada, nunca mais levantou pedras. Não sabia o que seria, mas imagina hoje que fosse uma cobra.
Quando chovia formava-se um grande charco. Como gostava de ali brincar… chapinhando na água, enquanto a sua mãe lavava a roupa.
Naquele Monte, junto às casas, as galinhas andavam soltas, faziam os ninhos no meio do mato, onde iam pôr os ovos. Um dos passatempos preferidos de Maria era andar no meio do mato à procura dos ovos.
Junto à casa onde morava havia um forno de lenha, uma alentejana costumava ir ali cozer o pão e dava-lhe sempre uma espécie de bolo que sabia a erva doce e que achava delicioso.
Ali perto havia um rio, lembra-se das suas águas límpidas a saltitar nas pedras brancas.
Às vezes ia até Barrancos com os seus pais, recorda-se de visitar o touril, onde havia forcados que provocavam os touros, dizendo « eh… touro… eh…eh…»
No Monte não havia outras crianças, mas havia um bebé do sexo masculino, ela não se lembra, mas a sua mãe contou-lhe quando já era crescida, que ficou muito admirada quando ao ver o bebé nu verificou que os homens eram diferentes das mulheres, que até aí tinha pensado que eram como ela.
Daqui foi viver para a Serra Del`Rei, perto de Peniche, primeiro na vila, depois num pequeno lugar que ficava na estrada que seguia para a praia Del`Rei e que se chamava Vale de Janelas. Este lugar era formado por três ou quatro casas dispersas e havia um pequeno lago que se cobria de nenúfares. Gostava de brincar perto do lago, onde havia muitas libelinhas, apesar dos avisos da sua mãe em contrário.
Pela primeira vez entrou para a escola, tinha de percorrer um longo caminho a pé, primeiro pela estrada e a seguir atravessando um pinhal. Havia um rapaz um pouco mais velho, talvez andasse já na quarta classe, com quem ia para a escola. Quando seguiam pela estrada e ouviam um carro aproximar-se escondiam-se atrás das dunas de areia para não serem vistos. Estes carros eram de Suíços que moravam em chalés junto à praia. E vá-se lá saber porquê imaginavam que os Suíços os podiam roubar, eram vistos como pessoas estranhas.
Maria não esquece que num dia de Inverno, apesar das luvas de lã, chorava de dores nas mãos, tal era o frio. O rapaz que levava umas luvas mais resistentes, perguntou-lhe se queria trocar com ele. E assim foi, Maria sentiu então que as suas mãos deixaram de doer. Ainda hoje apesar de já não se lembrar do rosto daquele rapaz, não se esquece deste gesto.
Recorda-se dos passeios até à praia, do ar da beira mar, das camarinhas brancas que colhia dos arbustos e que comia, da areia branca, do posto da Guarda junto ao mar, dos chalés Suíços no meio dos pinhais, que eram na maioria de pinheiros mansos.
Seguiu-se S. Pedro de Moel, daqui o que melhor recorda é a praia, o farol na falésia que visitava com seu pai e ter descoberto, quando foi com a mãe visitar uma senhora, que o liquido verde que estava dentro de um copo afinal era leite. Intrigada, ao ver por fora o copo, não se apercebeu que o que dava aquela cor ao liquido, era a cor do copo. É que na sua casa os copos eram transparentes.
S. Pedro de Moel era sem dúvida uma terra encantadora e naquela altura podia passear livremente por ela, sem perigo.
A seguir foi viver para a Leirosa , perto da Figueira da Foz, ali só a rua principal era de alcatrão, todas as outras eram de areia. Era este o caso da rua onde se encontrava a casa na qual morava, por isso passava o tempo a brincar na areia.
Recorda os pescadores, a pesca, as pessoas que se juntavam para puxar as redes, de apanhar a sardinha que rabeava na areia.
Às vezes ia com a mãe ao pinhal apanhar lenha. Ali corria um canal de água preta e mal cheirosa, que vinha da fábrica de celulose e corria directamente para o mar.
As mulheres dos pescadores, algumas vestidas de preto, quando o mar estava agitado e sentiam que uma traineira estava em possível perigo, corriam para a praia e de mãos sobre a cabeça, gritavam como se alguém estivesse para morrer.
Nesse ano teve duas professoras, a primeira passou-lhe uma vez para trabalhos de casa, escrever os números até duzentos, como achou que era um número muito grande e que não seria capaz, não fez. É claro que a professora a pôs de castigo no intervalo. A seguir veio uma professora muito mais simpática, que acreditava nas suas capacidades e tornou-se melhor aluna.
Porém, quando já estava a habituar-se, lá teve que mudar outra vez de terra, ter uma terceira professora e novos colegas. Quase ia chumbando na segunda classe, pudera com tantas professoras, escolas e colegas diferentes, muito bem se portou ela.
Esta nova terra era a Pampilhosa, terra menos bonita, mas com uma grande estação de comboios. Aqui viveu até completar o ciclo, aqui fez as primeiras amizades duradoiras.
Nesta localidade terminou uma etapa da sua vida. A segunda etapa iniciou-se com a sua ida em definitivo para o Luso, terra da famosa água, e a entrada para o liceu. Pensava ela que esta seria a sua morada definitiva, mas a profissão que escolheu não lhe permitiu essa estabilidade.

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