quarta-feira, 10 de junho de 2009

Luís Vaz de Camões


Hoje comemora-se o dia de Camões, de Portugal e das Comunidades portuguesas.

Camões, talvez o maior poeta português de todos os tempos, foi quem melhor definiu o indefinível amor.

Deixo também, como homenagem, um excerto do Adamastor, de "Os Lusíadas"; Causa arrepio só de ouvi-lo ou lê-lo...

Amor é fogo que arde sem se ver

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Luís de Camões

O Adamastor

Canto V - Os Lusíadas - Luís de Camões
….….
Porém já cinco Sóis eram passados
Que dali nos partíramos, cortando
Os mares nunca outrem navegados,
Prosperamente os ventos assoprando,
Quando uma noite, estando descuidados
Na cortadora proa vigiando,
Uma nuvem que os ares escurece,
Sobre nossas cabeças aparece.

Tão temerosa vinha e carregada,
Que pôs nos corações um grande medo;
Bramindo o negro mar, de longe brada
Como se desse em vão nalgum rochedo.
— "Ó Potestade, disse, sublimada!
Que ameaço divino, ou que segredo
Este clima e este mar nos apresenta,
Que mor coisa parece que tormenta?

Não acabava, quando uma figura
Se nos mostra no ar, robusta e válida,
De disforme e grandíssima estatura,
O rosto carregado, a barba esquálida,
Os olhos encovados, e a postura
Medonha e má, e a cor terrena e pálida,
Cheios de terra e crespos os cabelos,
A boca negra, os dentes amarelos.

Tão grande era de membros, que bem posso
Certificar-te, que este era o segundo
De Rodes estranhíssimo Colosso,
Que um dos sete milagres foi do mundo:
Com um tom de voz nos fala horrendo e grosso,
Que pareceu sair do mar profundo:
Arrepiam-se as carnes e o cabelo
mim e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo.

E disse: — "Ó gente ousada, mais que quantas
No mundo cometeram grandes cousas,
Tu, que por guerras cruas, tais e tantas,
E por trabalhos vãos nunca repousas,
Pois os vedados términos quebrantas,
E navegar meus longos mares ousas,
Que eu tanto tempo há já que guardo e tenho,
Nunca arados de estranho ou próprio lenho:

- "Pois vens ver os segredos escondidos
Da natureza e do húmido elemento,
A nenhum grande humano concedidos
De nobre ou de imortal merecimento,
Ouve os danos de mim, que apercebidos
Estão a teu sobejo atrevimento,
Por todo o largo mar e pela terra,
Que ainda hás de subjugar com dura guerra.

"— "Sabe que quantas naus esta viagem
Que tu fazes, fizerem de atrevidas,
Inimiga terão esta paragem
Com ventos e tormentas desmedidas!
E da primeira armada que passagem
Fizer por estas ondas insofridas,
Eu farei de improviso tal castigo,
Que seja mor o dano que o perigo."

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Debalde

Há dias ouvi esta expressão que já não ouvia há muito tempo, lembrei-me que aparecia nos velhos contos e histórias infantis. Hoje já não se encontra nessas histórias, porque a linguagem sofre mudanças e vai-se adaptando aos tempos modernos. Terá que ser assim para captar o interesse das nossas crianças mas, não deixo de sentir alguma nostalgia em relação a este vocabulário. Alimentavam o nosso imaginário e achávamos engraçado por analogia com o objecto que serve para levar água.
Debalde significa: em vão , inutilmente, frustradamente. Pode ser aplicado em várias situações da nossa vida.
Debalde, às vezes, temos sonhos… por vezes concretizam-se.
Debalde nos esforçamos por ser felizes… por vezes conseguimos.
Debalde lutamos contra as adversidades… muitas vezes vencemos.
Debalde nos dedicamos a alguém… por vezes vale a pena.
…..
Debalde advérbio engraçado…

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Descendo o rio numa canoa



Sempre gostei de desporto contudo, nunca fui adepta da prática de desportos radicais. Dão-me aquela sensação de perda de controlo, que não gosto de sentir.
Há algum tempo, recebi um convite para descer o rio Mondego de canoa. Não aceitei logo, muito embora tivesse curiosidade de experimentar. Fiz muitas perguntas: E se a canoa se vira? E se o rio tem muita corrente? E se eu não consigo controlar? E os rápidos? Convenceram-me que não era perigoso e aceitei, porém, cada vez que pensava nisso sentia um friozinho na barriga. Pensei: se os outros conseguem porque também não hei-de conseguir?
Lá fui, sempre com aquele friozinho na barriga. Depois de iniciada a viagem tivemos de remar, contornar obstáculos. Com o meu companheiro de viagem (a canoa era de duas pessoas) discutia estratégias para melhor avançar. A maior parte das vezes não estávamos de acordo e já só quase no fim da viagem consegui fazer entender ao meu companheiro (o meu filho), que se tivéssemos remado em sintonia teria sido menos cansativa a descida.
É assim, também na vida real nem sempre estamos em sintonia e por vezes já descobrimos demasiado tarde, que se tivéssemos remado no mesmo sentido, teria sido bem mais proveitoso e menos cansativo.
A descida do rio foi uma experiência inesquecível para mim. Para além da beleza natural que se aprecia, cheguei ao fim da viagem com a sensação de ter vencido uma batalha. Por vezes é preciso desafiarmo-nos e superarmo-nos a nós próprios, vencer o medo.
Vencer o medo, ultrapassar barreiras, superarmo-nos a nós próprios torna-nos mais conhecedores de nós mesmo, torna-nos mais fortes.
Estou a pensar seriamente em voltar a repetir esta experiência.

sábado, 16 de maio de 2009

Laura Esquível "Como água para Chocolate"




Este foi um dos últimos livros que li; recomendo... Com algumas cenas algo surrealistas, um pouco ao jeito de Gabriel Garcia Marquez, mas mais soft. Registo aqui parte de um dos capítulos que mais me tocou, com o título " Massa para fazer fósforos".

Massa para fazer fósforos

… Não podia haver em toda a casa um sítio melhor do que o seu pequeno laboratório. Jonh tinha passado nele a maior parte da sua infância e adolescência. … Tita gostava muitíssimo de o ver trabalhar. Com ele havia sempre coisas para aprender e descobrir., como agora, que enquanto preparava os fósforos ia-lhe dando uma lição sobre fósforos e suas propriedades. ….
O médico não descuidava a preparação dos fósforos pelo facto de falar. Dissociava sem qualquer problema a actividade mental da física. Podia até filosofar sobre os aspectos mais profundos da vida sem que as suas mãos cometessem erros ou pausas. Portanto, continuou a manufacturar os fósforos enquanto conversava com Tita. …
… Enquanto as tiras secavam, o médico mostrou uma experiência a Tita.
- Embora o fósforo não faça combustão com o oxigénio à temperatura ambiente, é susceptível de arder com grande rapidez a uma temperatura elevada, olhe…
O médico introduziu um pequeno pedaço de fósforo num tubo fechado num dos lados e cheio de mercúrio. Fez fundir o fósforo aproximando o tubo da chama de uma vela. Depois, através de uma pequena campânula de ensaios cheia de oxigénio fez passar muito lentamente o gás para a campânula, onde se encontrava o fósforo fundido, deu-se uma combustão viva e instantânea, que os deslumbrou como se fosse um relâmpago.
- Como vê, todos temos no nosso interior os elementos necessários para produzir fósforos. Mais ainda, deixe-me dizer-lhe uma coisa que não confiei ainda a ninguém. A minha avó tinha uma teoria muito interessante, dizia que embora todos nasçamos com uma caixa de fósforos no nosso interior, não os podemos acender sozinhos, precisamos, como na experiência, de oxigénio e da ajuda de uma vela. Só que neste caso o oxigénio tem de vir, por exemplo, do hálito da pessoa amada; a vela pode ser qualquer alimento, música, carícia, palavra ou som que faça disparar o detonador e assim acender um dos fósforos. Por momentos sentir-nos-emos deslumbrados por uma intensa emoção. Dar-se-á no nosso interior um agradável calor que irá desaparecendo pouco a pouco conforme passa o tempo, até vir uma nova explosão que o reavive. Cada pessoa tem de descobrir quais são os seus detonadores para poder viver, pois a combustão que se dá quando um deles se acende é que alimenta a alma de energia. Por outras palavras esta combustão é o seu alimento. Se uma pessoa não descobre a tempo quais são os seus próprios detonadores, a caixa de fósforos fica húmida e já nunca poderemos acender um único fósforo.
Se isso chegar a acontecer a alma foge do nosso corpo, caminha errante pelas trevas mais profundas procurando em vão encontrar alimento sozinha, não sabendo que o corpo que deixou inerme, cheio de frio, é o único que poderia dar-lho.
Como eram certas aquelas palavras! Se havia alguém que soubesse isso era ela. Infelizmente, tinha de reconhecer que os seus fósforos estavam cheios de mofo e humidade. Ninguém podia voltar a acender um só que fosse.
O mais lamentável era que ela sabia bem quais eram os seus detonadores, mas cada vez que tinha conseguido acender um fósforo haviam-no apagado inexoravelmente.
Jonh, como que lendo o seu pensamento, comentou:
- Por isso é preciso mantermo-nos afastados de pessoas que tenham o hálito gélido. Bastaria a sua presença para poder apagar o fogo mais intenso, …. Há muitas maneiras de pôr uma caixa de fósforos húmida a secar, mas pode ter a certeza de que tem solução. ….
- É claro que também é preciso ter cuidado de ir acendendo os fósforos um a um. Porque se por uma emoção muito forte se acendem todos de uma vez produz-se um brilho tão forte que ilumina para além do que podemos ver …
- Bom, não quero aborrecê-la com a minha conversa. …. gostaria de lhe ensinar uma brincadeira que eu e a minha avó fazíamos com frequência. … Ela escrevia utilizando uma substância invisível, e sem que eu visse, uma frase na parede. Quando à noite eu via a parede, adivinhava o que ela tinha escrito. Quer que experimentemos?...
… O médico com um pano pegou num bocado de fósforo e deu-o a Tita.
- Não quero quebrar o silêncio que impôs a si própria, e assim como que num segredo entre os dois, vou pedir-lhe que quando eu sair me escreva nesta parede as razões pelas quais não fala, está bem? Amanhã adivinhá-las-ei à sua frente.
O médico, é claro, não disse a Tita que uma das propriedades do fósforo era a de que fazia brilhar à noite o que ela tivesse escrito na parede. Obviamente, ele não precisava deste subterfúgio para saber o que ela pensava, mas confiava que este seria um bom começo para que Tita entabulasse novamente uma comunicação consciente com o mundo, ainda que fosse por escrito. Jonh percebia que ela já estava pronta para isso. Assim que o médico saiu, Tita pegou no fósforo e aproximou-se da parede.
De noite, quando Jonh entrou no laboratório sorriu satisfeito ao ver escrito na parede com letras firmes e fosforescentes: «Porque não quero». Tita com três palavras tinha dado o primeiro passo para a liberdade. …

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Sobre Salazar

O mundo deve estar louco. De repente parece que Salazar se tornou um grande homem, um ídolo nacional.
A ser verdade a história da sua vida, que passou há tempos, em filme, na televisão; só concluo que era um homem cruel e frio. Um homem que não tinha quaisquer escrúpulos, que descartava com a maior facilidade, as várias mulheres, por quem se dizia apaixonado.
Faz-me recordar que, há uns anos atrás, num dito concurso, do qual já não lembro o nome mas, que tinha por objectivo escolher a personagem mais marcante de Portugal, ele foi o escolhido. Senti vergonha do meu país. Parece que as pessoas têm memória curta. Quando morreu eu era muito criança, não tenho qualquer recordação. Porém, sempre ouvi dizer, às pessoas que viveram na sua época, que tinha sido um mau governante. Pode ter organizado as finanças mas, castrou a liberdade e nunca fez algo de verdadeiramente útil pelo nosso país, mantendo-o num atraso total, do qual ainda hoje nos ressentimos.
Nesse dito concurso, melhor seria terem escolhido D. Afonso Henriques, esse sim lutou, de forma aguerrida e apaixonada, pelo nosso país.

sábado, 25 de abril de 2009

Primeira senha musical do 25 de Abril

A 1ª senha, para o início das operações militares a desencadear pelo Movimento das Forças Armadas, foi dada por João Paulo Dinis aos microfones dos Emissores Associados de Lisboa: «Faltam cinco minutos para as vinte e três horas. Convosco, Paulo de Carvalho com o Eurofestival 74, E Depois do Adeus ...».

Quis saber quem sou
O que faço aqui
Quem me abandonou
De quem me esqueci
Perguntei por mim
Quis saber de nós
Mas o mar
Não me traz
Tua voz.

Em silêncio, amor
Em tristeza e fim
Eu te sinto, em flor
Eu te sofro, em mim
Eu te lembro, assim
Partir é morrer
Como amar
É ganhar
E perder

Tu vieste em flor
Eu te desfolhei
Tu te deste em amor
Eu nada te dei
Em teu corpo, amor
Eu adormeci
Morri nele
E ao morrer
Renasci

E depois do amor
E depois de nós
O dizer adeus
O ficarmos sós
Teu lugar a mais
Tua ausência em mim
Tua paz
Que perdi
Minha dor que aprendi
De novo vieste em flor
Te desfolhei...

E depois do amor
E depois de nós
O adeus
O ficarmos sós.

in http://joaogil.planetaclix.pt/h2.htm

Sobre o 25 de Abril




Hoje comemora-se o dia da revolução, a chamada revolução dos cravos, que devolveu a liberdade aos portugueses.
Há 35 anos eu tinha 10 anos e portanto as memórias que tenho são vagas, sobretudo porque os acontecimentos que se deram nesse dia não faziam parte do meu entendimento. Mas recordo que foi um dia muito estranho, a televisão interrompeu a emissão normal, passava sempre a mesma música, penso que a “Grândola vila morena”, e em determinadas alturas aparecia um militar a falar. As pessoas sentiam-se inquietas, mas ao mesmo tempo pareciam felizes.
A partir desse dia, novas palavras surgiram no meu vocabulário: revolução, liberdade, democracia, ditadura, PIDE, tortura, fascismo…
Um dia em que estava zangada com o meu pai chamei-lhe fascista. Ele ficou muito zangado e ofendido comigo e disse-me: «Não me chames isso que nem sabes o que essa palavra significa». E realmente não sabia, sabia apenas que era um insulto, só mais tarde vim a perceber o que significava. Contudo já podia dizê-la, porque ela já se tinha vulgarizado no vocabulário dos portugueses e toda a gente já tinha liberdade para dizer o que pensava.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Para que serve um hi5...!?

De há uns anos a esta parte têm vindo a proliferar as novas tecnologias. Sem dúvida, têm as suas vantagens. Podemos comunicar facilmente com pessoas que estão à distância, podemos resolver rapidamente questões de trabalho.
Nos meus tempos de estudante, não havia nada disto, os trabalhos eram feitos à mão ou na máquina de escrever. Hoje em dia, trabalho que não seja feito em Word, Excel ou Powerpoint, não é trabalho que se preze…!
Também aderi às novas tecnologias. Primeiro foi o e-mail. No inicio é muito interessante trocar emails, alguns chegam a surpreender-nos. Depois começam a ser demasiados! Algumas pessoas enviam carradas, como se não tivessem mais nada que fazer e nós também não, para os ler. Então, quando a lista é grande, o melhor é apagá-los todos e não ler nenhum.
O MSN também é interessante para conversar com amigos, principalmente com amigos e familiares que vivem noutros países, porém devido ao fuso horário é difícil apanhá-los, só se estivéssemos todo o dia com o Messenger ligado e a olhar para o computador, mas há mais que fazer.
Estão também na moda o hi5 e o Facebook.
Para que serve um hi5? A ideia parece ser comunicar com os amigos, fazer amigos.
O certo é que o hi5 mostra sempre um pouco de nós, principalmente se for verdadeiro. Mas também há os camuflados, os que se fazem passar por aquilo que não são. Seja como for, por muito camuflados que sejam, espelham sempre algo da personalidade de quem os constrói.
Também tenho um hi5, o meu é verdadeiro e espelha partes da minha vida. Através dele comunico com amigos ou familiares, sabendo novidades que de outra forma não saberia. Não tenho muitos amigos no meu hi5 porque não quero ter gente que não conheço. O que teria para lhes dizer? A esses não tenho problemas de negar pedidos de amizade. Contudo, há sempre aqueles que é difícil negar, porque apesar de não termos grande afinidade com eles, é aborrecido não aceitar. Enfim, um hi5 é sempre um pau de dois bicos.
Há pessoas que têm amigos às carradas, fazem colecção, deve ser só para fazer número, porque é impossível comunicar com tanta gente.
A ideia de um hi5 será comunicar com outras pessoas, enviar mensagens, fazer comentários, ver fotos, ver preferências, etc. Mas há pessoas que nunca têm nada para dizer. Também num hi5 nunca podemos dizer tudo o que pensamos, as mensagens, por vezes, têm de ser subtis, o que estimula a imaginação.
Isto realmente é engraçado! Como a mente Humana é misteriosa!
Há amigos que têm hi5, há quem tenha hi5, mas não seja amigo e, há amigos que não têm hi5.
Cá por mim gosto muito do meu Blogue, sou eu e ele solitários, fazendo companhia um ao outro. Nunca sei quem o lê ou se o lêem, o que tem as suas vantagens.

domingo, 19 de abril de 2009

Os meus poemas



Momentos de inspiração.

Elogio ao belo


É bela a água do regato,
A água a cair na fonte.
É bela a grande cascata,
Ou o arco íris no horizonte.

É bela a mãe que amamenta,
O seu menino em seu seio.
É bela a criança que brinca,
No jardim ou no recreio.

É bela a grande montanha.
E a sua aldeia dormente.
É bela a grande cidade.
Tão belo teu corpo ausente.

É belo o rio que corre,
O mar de salgado sabor.
Também são belos dois corpos,
Que se juntam por amor.

O que sou...

Eu sou o sol e a chuva,
A brisa e o vendaval.
Um calmo lago de nenúfares,
A tempestade no mar.
Sou assim, é fatal.

Sou o nascer e o pôr do sol.
O frenesim da serpente,
A calma do caracol.
A cidade agitada
A aldeia dormente.

Posso ser vinho ou ser água.
Alguém que ri com vontade,
Alguém que chora.
Posso apagar da memória,
Ou posso sentir saudade.

Posso ser um grande livro,
Ou a breve noticia de jornal.
Sou o que quero,
E o que não quero.
Sou o oposto e o igual.

Sou caça ou caçador...

Sou caça, fui caçada,
Por um grande caçador!
Fui caçada por alguém,
Que roubou o meu amor!

Caça, caça caçador.
Foge, foge ó caçada.
Do enorme predador,
Que te põe embaraçada!

De tão caçada, fui caçador!
Foge, foge caçador,
Que a caça te quer caçar,
Para roubar o teu amor!

Menos que banal...

Vindo do nada, chegou,
Sem saber como, nem porquê!
Aos poucos foi entrando,
Querendo, desejando, cativando.
Tentei resistir mas, afinal
Desejei, senti,
Fui cativada.
Pois não parecia banal.
Foi tudo fugaz.
Uma desilusão,
Que me arrancou
Um pedaço do coração.
Que me abalou a razão.
Partiu, sem chegar.
Algo irreal,
Pura ilusão
Ou talvez produto da imaginação.
Mas não faz mal,
Porque afinal,
Foi menos que banal.

A infância de Maria

Maria cedo abandonou a sua terra Natal, devido à profissão de seu pai, que viu a sua primeira colocação bastante longe. Com o decorrer do tempo, o objectivo dos seus pais era aproximarem-se cada vez mais da terra onde tinham nascido, regressando assim às suas origens.
Com cerca de cinco anos, foi viver para um monte alentejano composto por meia dúzia de casas. Este monte ficava situado perto de Barrancos, a terra da tourada, e perto da fronteira com Espanha.
Recorda-se de o pai lhe ter feito uns chinelos de cortiça, produto abundante naquela região. Corria pelas planícies, apanhava bolotas debaixo dos sobreiros, corria atrás das vacas que pastavam nos campos e fugia delas quando aproximando-se demasiado, estas se apercebiam da sua presença e lhe viravam os chifres ameaçadores.
A sua brincadeira preferida era levantar pedrinhas para descobrir ninhos de formigas, ficava horas a seguir os seus carreiros, vendo-as a carregar umas bolinhas brancas, que lhe pareciam ovos. Então imaginava que as formigas eram as suas galinhas e aquelas bolinhas brancas eram os ovos que elas punham. Um dia levantou uma pedra maior que o habitual, baixou-se e espreitou, viu dois olhos muito brilhantes a olharem para ela. Rapidamente baixou a pedra e fugiu assustada, nunca mais levantou pedras. Não sabia o que seria, mas imagina hoje que fosse uma cobra.
Quando chovia formava-se um grande charco. Como gostava de ali brincar… chapinhando na água, enquanto a sua mãe lavava a roupa.
Naquele Monte, junto às casas, as galinhas andavam soltas, faziam os ninhos no meio do mato, onde iam pôr os ovos. Um dos passatempos preferidos de Maria era andar no meio do mato à procura dos ovos.
Junto à casa onde morava havia um forno de lenha, uma alentejana costumava ir ali cozer o pão e dava-lhe sempre uma espécie de bolo que sabia a erva doce e que achava delicioso.
Ali perto havia um rio, lembra-se das suas águas límpidas a saltitar nas pedras brancas.
Às vezes ia até Barrancos com os seus pais, recorda-se de visitar o touril, onde havia forcados que provocavam os touros, dizendo « eh… touro… eh…eh…»
No Monte não havia outras crianças, mas havia um bebé do sexo masculino, ela não se lembra, mas a sua mãe contou-lhe quando já era crescida, que ficou muito admirada quando ao ver o bebé nu verificou que os homens eram diferentes das mulheres, que até aí tinha pensado que eram como ela.
Daqui foi viver para a Serra Del`Rei, perto de Peniche, primeiro na vila, depois num pequeno lugar que ficava na estrada que seguia para a praia Del`Rei e que se chamava Vale de Janelas. Este lugar era formado por três ou quatro casas dispersas e havia um pequeno lago que se cobria de nenúfares. Gostava de brincar perto do lago, onde havia muitas libelinhas, apesar dos avisos da sua mãe em contrário.
Pela primeira vez entrou para a escola, tinha de percorrer um longo caminho a pé, primeiro pela estrada e a seguir atravessando um pinhal. Havia um rapaz um pouco mais velho, talvez andasse já na quarta classe, com quem ia para a escola. Quando seguiam pela estrada e ouviam um carro aproximar-se escondiam-se atrás das dunas de areia para não serem vistos. Estes carros eram de Suíços que moravam em chalés junto à praia. E vá-se lá saber porquê imaginavam que os Suíços os podiam roubar, eram vistos como pessoas estranhas.
Maria não esquece que num dia de Inverno, apesar das luvas de lã, chorava de dores nas mãos, tal era o frio. O rapaz que levava umas luvas mais resistentes, perguntou-lhe se queria trocar com ele. E assim foi, Maria sentiu então que as suas mãos deixaram de doer. Ainda hoje apesar de já não se lembrar do rosto daquele rapaz, não se esquece deste gesto.
Recorda-se dos passeios até à praia, do ar da beira mar, das camarinhas brancas que colhia dos arbustos e que comia, da areia branca, do posto da Guarda junto ao mar, dos chalés Suíços no meio dos pinhais, que eram na maioria de pinheiros mansos.
Seguiu-se S. Pedro de Moel, daqui o que melhor recorda é a praia, o farol na falésia que visitava com seu pai e ter descoberto, quando foi com a mãe visitar uma senhora, que o liquido verde que estava dentro de um copo afinal era leite. Intrigada, ao ver por fora o copo, não se apercebeu que o que dava aquela cor ao liquido, era a cor do copo. É que na sua casa os copos eram transparentes.
S. Pedro de Moel era sem dúvida uma terra encantadora e naquela altura podia passear livremente por ela, sem perigo.
A seguir foi viver para a Leirosa , perto da Figueira da Foz, ali só a rua principal era de alcatrão, todas as outras eram de areia. Era este o caso da rua onde se encontrava a casa na qual morava, por isso passava o tempo a brincar na areia.
Recorda os pescadores, a pesca, as pessoas que se juntavam para puxar as redes, de apanhar a sardinha que rabeava na areia.
Às vezes ia com a mãe ao pinhal apanhar lenha. Ali corria um canal de água preta e mal cheirosa, que vinha da fábrica de celulose e corria directamente para o mar.
As mulheres dos pescadores, algumas vestidas de preto, quando o mar estava agitado e sentiam que uma traineira estava em possível perigo, corriam para a praia e de mãos sobre a cabeça, gritavam como se alguém estivesse para morrer.
Nesse ano teve duas professoras, a primeira passou-lhe uma vez para trabalhos de casa, escrever os números até duzentos, como achou que era um número muito grande e que não seria capaz, não fez. É claro que a professora a pôs de castigo no intervalo. A seguir veio uma professora muito mais simpática, que acreditava nas suas capacidades e tornou-se melhor aluna.
Porém, quando já estava a habituar-se, lá teve que mudar outra vez de terra, ter uma terceira professora e novos colegas. Quase ia chumbando na segunda classe, pudera com tantas professoras, escolas e colegas diferentes, muito bem se portou ela.
Esta nova terra era a Pampilhosa, terra menos bonita, mas com uma grande estação de comboios. Aqui viveu até completar o ciclo, aqui fez as primeiras amizades duradoiras.
Nesta localidade terminou uma etapa da sua vida. A segunda etapa iniciou-se com a sua ida em definitivo para o Luso, terra da famosa água, e a entrada para o liceu. Pensava ela que esta seria a sua morada definitiva, mas a profissão que escolheu não lhe permitiu essa estabilidade.

Florbela Espanca


Aqui fica Florbela Espanca.

Quem dera a mim,

escrever assim,

como esta poetisa,

que me encanta!

Anseios

Meu doido coração aonde vais,
No teu imenso anseio de liberdade?
Toma cautela com a realidade;
Meu pobre coração olha que cais!

Deixa-te estar quietinho! Não amais
A doce quietação da soledade?
Tuas lindas quimeras irreais,
Não valem o prazer duma saudade!

Tu chamas ao meu seio, negra prisão!
Ai, vê lá bem, ó doido coração,
Não te deslumbre o brilho do luar!...

Não estendas tuas asas para o longe..
Deixa-te estar quietinho, triste monge,
Na paz da tua cela, a soluçar...

Ser poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

sábado, 18 de abril de 2009

Ser autêntico

Ser autêntico e verdadeiro são qualidades que aprecio. Conheço pessoas assim, mas também conheço fraudes. É sempre bom conhecermos de tudo, um pouco.
Costumo ser autêntica e gosto de viver a vida intensamente. Valorizo cada dia, embora haja sempre uns dias melhores do que outros. O meu café é preto, forte e quente. Não prescindo do meu cigarro. O meu vestido pode ser preto, vermelho ou verde. Não escrevo com floreados, sou o que se costuma dizer «pão, pão / queijo, queijo». Para florear já basta o sonho e a imaginação.
Conhecermo-nos, termos consciência de nós próprios é bom. Ajuda-nos a saber lidar melhor com os outros.